Ana Marques Gastão, Diário de Notícias, Lisboa, 2002.
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Vêm estas considerações a propósito da recente publicação de Comenda de Fogo, do também poeta Eduardo Pitta, reconhecido por um despojado movimento linguístico não ornamental, por vezes quase epigramático, elíptico, descarnado, ácido, nítido, tão vagaroso como veloz na deriva fugaz do corpo [...] Para além da sede de leitura que precede a análise da especificidade da obra poética, o autor [...] detém-se  —  como crítico documentado, minucioso até à exaustão, nos seus pressupostos tão ou mais enumerativos quanto analíticos —, não só nos poetas canonizados, como nos novos e novíssimos. E é hábil, contundente e organizado no manuseamento da palavra e na criação de um metadiscurso onde o leitor se pode encontrar [...] Eduardo Pitta está atento aos poetas que escrevem numa linha de continuidade histórica [...] fazendo sentir que a literatura nem sempre está desfasada de uma realidade sociocultural. O discurso crítico de Eduardo Pitta dir-se-ia também [...] móvel, fluído, sintético e ecléctico na reconstituição da trajectória do autor.