António Jorge Ramalho, Canal de Livros, 2004.
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Segundo o Dicionário Latim Português (Porto Editora), o significado de persona é máscara. [...] Se máscara é a «form of disguise usually worn over the face to disguise the identity of the wearer» (The Wordsworth Dictionary of Beliefs and Religions), é também personagem e, finalmente, pessoa. Considerações a propósito de Persona, livro de ficção de Eduardo Pitta [...] A minha sugestão é que a orientação moral começa no título [...] e termina na pessoa, i.e., em Afonso, protagonista de Pesadelo. Note-se que escrevi protagonista de Pesadelo e não dos dois primeiros contos, porque só no último é que a personagem atinge plenamente, na minha opinião, a independência de espírito que o eleva à categoria de «pessoa», aqui entendida como um distanciamento crítico em relação aos elementos culturais necessários à construção do «Eu». O movimento progressivo começa com o aviso de Eduardo Pitta: «Qualquer semelhança com pessoas e factos é mera coincidência». A afirmação do autor resulta não só na anulação de hipotéticas identidades civis, enquadradas num espaço e num tempo finamente definidos, mas também na atribuição de características e comportamentos a um conjunto alargado de indivíduos [...] A identidade, intimamente associada à sexualidade, é assim problematizada [...] O resultado é uma visão desencantada. Após o sonho de uma irmandade masculina, baseada na identidade sexual e representada pelo hedonismo pós-stonewalliano, Afonso constatará que nem todas as características humanas são passíveis de transformação através de uma hipotética revolução sexual. A passagem é antológica: «Juntos [Lucas e Mateus], odiaram o frio e as bichas enconadas do Monte Carlo, um santuário daqueles tempos de segregação. 'Estão divididas em três grupos, o da TAP, o da ópera e o do teatro experimental. Quem não é da aviação, não gosta da Callas ou não vai a Paris ver Ionesco, não existe. As não-alinhadas atacam no Monumental, mas a foleirice é a mesma.' [...] Os versos de Eduardo Pitta apontam para um dos temas mais importantes da sua poesia e, ouso afirmá-lo, da sua ficção: o exílio. Afonso, um português [...] adiciona, à sua nacionalidade imanentemente problemática [...] a homossexualidade, uma outra forma de consciência da diferença, neste caso não racial, mas sexual.