Maria Augusta Silva, Diário de Notícias, Lisboa, 2005.
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Eduardo Pitta trouxe à poesia dos anos 70 uma força nova, quando surgiu com o primeiro livro Sílaba a Sílaba (1974). Somaram-se poemas desafiantes e de igual intensidade nos dois grandes territórios do poeta: o do corpo, que assume na plenitude os signos homoeróticos  -  «E só agora / tu e eu sabemos / da urgência do / amor»; e o de apátrida ou exilado, no sentido de ser um homem de duas pátrias apartadas: Moçambique, onde nasceu na então Lourenço Marques, e Portugal para onde veio em 1975. «Eu diria dos apátridas que somos / daquela pátria que nos sobra.» São versos que integram Poesia Escolhida, de Eduardo Pitta, edição do Círculo de Leitores, em que o poeta alinhou poemas feitos entre 1971 e 1996. Se já na antologia pessoal Marcas de Água (1999) podemos ter uma noção ampla do trabalho poético de Eduardo Pitta, agora que passam mais de três décadas de uma criatividade repartida [...] pela poesia, ficção, ensaio e crítica literária, o volume Poesia Escolhida alarga não apenas esse conhecimento como permite uma avaliação porventura mais atenta do conteúdo, da imagística, da estrutura e dos ritmos físico e psicológico do autor. Ao coligir poemas de 25 anos de escrita e de obras há muito esgotadas, e mesmo sabendo-se que a escolha está longe de abarcar toda a produção do escritor nesse período, Eduardo Pitta voltou a propor «a linguagem da desordem», expressão que deu título ao seu livro de 1983 [...] no qual há «alguns mortos de intervalo», mas a dizer-nos, igualmente, que «As cidades fazem-se todos os dias.» Poeta conciso, poeta da síntese que sabe a pulsão eficaz da metáfora e o longo alcance da brevidade, do instante, é na comunicação dos contrastes, no «grito gritado ao contrário», no discurso tenso da memória, da errância, do amor e do desejo que Eduardo Pitta demanda o jogo de espelhos. Um jogo cruento pela energia do olhar e da palavra, por uma ácida lucidez que se cumpre no domínio absoluto da transfiguração: «Temos que baste: a pátria à janela / e a vontade na cama»; ou ainda: «Quando te encontro, / girassol do meio-dia, / baloiça-te na voz / um desejo de tâmaras / Inclino-me e soergo-te, / transpiras e dás fruto.» Eduardo Pitta, esquivo à retórica, tem uma oficina poética sólida, com o poder sugestivo e cáustico de um Baudelaire, com a depuração de Yeats. Sempre contida, na poesia do autor de obras como Um Cão de Angústia Progride plasma-se, ao mesmo tempo, e num estilo elíptico, o fulgor e o silêncio, a lâmina e a alma, a sedução e a ironia. Um ritmo que encontramos, também, na sua arte de crítico e de ensaísta.