José Mário Silva, Diário de Notícias, Lisboa, 2005.
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Escrever sobre Veneza – a Sereníssima – implica sempre um grande risco. [...] Ciente dos riscos, o poeta e crítico Eduardo Pitta não deixou, mesmo assim, de publicar em livro o seu diário veneziano [...] e convém desde logo destacar a sua coragem. Mais do que um caderno de apontamentos pessoais, Os Dias de Veneza apresenta-se como o "relato de um epicurista na cidade dos Doges". E é disso que se trata, literalmente o "epicurista" a exibir as suas idiossincrasias de bon vivant, tendo a "cidade dos Doges" como luxuoso pano de fundo. Quem estiver à espera de algo mais substancial do que as extravagâncias previsíveis de um dandy ávido de requinte, deve procurar noutro lado. Aqui e ali, Pitta deixa-se inebriar pelos belíssimos nomes italianos das ruas ou das igrejas e a escrita transforma-se numa espécie de toada cantabile [...] Pitta é, indiscutivelmente, um cronista atento e subtil, mestre na arte da elipse. Por exemplo, a forma como introduz a nostalgia de Moçambique [...] consegue ser confessional sem o expor demasiado. E os flashes em que narra jogos de sedução nocturnos, com sexo na sombra e vultos ajoelhados em "libações pagãs", são do melhor que a literatura gay tem para oferecer. Acontece que o livro não respira, sufocado pela pose blasé do seu autor. [...] Nada contra. Mas é pena que um provável bom livro de viagens se transforme assim, ingloriamente, num pretensioso Lonely Planet para ricos.