Edgard Pereira, Revista do Centro de Estudos Portugueses, n.º 34, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte (Brasil), 2005.
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O título Persona origina-se do latim, referindo a antiga máscara dos actores. [...] A trilogia de contos de Eduardo Pitta mistura a evocação da guerra colonial em Moçambique, distanciada do natural enquadramento político, à liberação do corpo e da sexualidade, num contexto-limite de trocas culturais e reciprocidade. [...] A contiguidade da libertação política e da concepção libertária da sexualidade é percebida pelos aparelhos estatais (entenda-se imperiais) como o desmoronar de um domínio que se imaginava consistente e eterno. O último conto atinge em cheio as estruturas supostamente sólidas do Império luso, ao revelar criticamente o lado pouco convencional de um quartel, desvelando a sexualidade nada exemplar de diversos e notáveis actores sociais [...] Os outros lugares focados na trilogia, a escola e o deserto, não são menos significativos no diagnóstico de uma literatura caudatória das preocupações (a)moralizantes da escrita libertina do século XVIII. [...] Eduardo Pitta vem construindo uma obra em três vertentes: na poesia, no ensaio e, mais tardiamente, na ficção. [...] Assinalável o seu trabalho pioneiro no âmbito dos gay studies em Portugal, com a publicação de Fractura. A Condição Homossexual na Literatura Portuguesa Contemporânea (2003). Surpreende esta sua estreia, pela desenvoltura como constrói numa linguagem ágil, dinâmica, num português globalizado, receptivo a expressões inglesas, francesas e crioulas, uma ficção alegre e ousada, refinada e demolidora, irónica e encharcada de cepticismo. Ninguém percebe que antes atravessou o aparentemente plácido jardim da poesia [...] sem temer o lado vulgar da realidade, a marca da lama ou do lodo, sem intimismo pegajoso, sem o tom de vítima por apalpar a lama ou o lodo, quando necessário.