Paulo Simões Mendes, supl. Mil Folhas, Público, Lisboa, 2005.
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Muito se escreveu sobre La Serenissima. Chegou a vez de Eduardo Pitta, que conhecíamos como poeta, ensaísta, crítico e contista, e agora nos dá um breve diário veneziano. Os Dias de Veneza começa no dia 12 de Setembro de 2004 e, logo a abrir, o autor escreve: «Fez ontem três anos o mundo mudou. Começou uma nova era, mas nem por isso o passado desapareceu. Em que outro lugar senão Veneza o saberemos?» Está dado o tom. E se a narrativa tenta evitar o confessionalismo, nunca evita a mordacidade. Em estilo fluido, a inscrição de locais, datas e horas não indicia comprometimento íntimo. As breves excepções acham-se no aniversário do companheiro, com quem viaja, e no episódio de transfert provocado pelo encontro com o casal alemão que viveu em Moçambique: «Um gesto bastou. Viram que barrava os camarões com manteiga, velho hábito laurentino, e o transporte consumou-se. Estão lá outra vez. Nenhum deles diz Maputo, dizem sempre Lourenço Marques. Confessam-se presos às recordações desses anos. ‘Os mais felizes da nossa vida’. Não esqueceram nada.» [...] A estratégia passa pelo corte da exposição excessiva. Pitta sempre dominou a elipse. [...] A colagem ao real não anula o carácter ficcional, através da perspectiva subjectiva e digressiva do sujeito que percorre Veneza e a sua história. É neste sentido que se inserem as notas sobre locais emblemáticos [...] A ida ao Grassi provoca um desabafo: «O pior é a turba. Curioso. No Palazzo Ducale não haveria cem pessoas. Na retrospectiva Turner metade, e o resto do Correr vazio. A colecção Guggenheim tinha bastante mais que os outros, mas também era outro tipo de visitantes, nem miudagem nem grupos organizados com guia palrador. Hoje de manhã, desabou tudo no Grassi.» Vêm a propósito as invectivas sobre ‘os turistas de pacote’. Citando Brodsky, o narrador não os poupa à classificação de «manada», exprimindo aversão a viagens organizadas por terceiros. Sobre a «febre» das gôndolas, um comentário exemplar: «Agora os turistas vão aos molhos (é mais barato a dividir por seis), a maioria sem saber para onde, sorriso afivelado à posteridade hi-tec.» Nestes comentários abunda a ironia e o homoerotismo: «O Gritti [...] tem o bar repleto de ingleses déclassé que dão gorjetas de cem libras. Como todos têm a heterossexualidade bem alardeada, não se coíbem de apalpões no rabo uns dos outros. O staff não mexe um músculo da cara»; ou, no recinto da Biennale, «A loja é território de descarado camping. Camping, como se dizia em África, ou seja, cruising, tal como fixaram os gay studies.» Pitta detém-se a descrever a gastronomia local e os ambientes, muitas vezes esplendorosos. O elitismo do autor é uma forma de consciência de classe que suscita o tipo de mitificação que associamos a Veneza. Tudo serve para agitar a imaginação e conduzir ao devaneio. [...] A melancolia é revertida pela grandeza da experiência e pelo investimento no diário, forma de contrariar o tempo e combater a memória fugaz, congelando o passado filtrado já pelo presente da escrita. Num relato subjectivo e visual, afluem os comentários sobre os espaços, as pessoas, as manifestações de gosto, a sexualidade. A exaltação de Veneza não se limita a isso, pois realça a vivência do sujeito, testemunha a colagem do corpo àquele lugar, e daquele lugar à memória e ao modo como se passa a ver o mundo. Ao fim e ao cabo, tudo isto tem que ver com a experiência única e irrepetível da água e do tempo.