Fernando Venâncio, Aspirina B, 2007.
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O primeiro grande romance gay da nossa literatura, acabou por escrevê-lo Eduardo Pitta. [...] Haveria de ser Eduardo Pitta, com esta Cidade Proibida, acabada de sair na Quid Novi. Do contista de Persona (2000, agora reeditado) poderia já esperar-se a façanha. Mas as grandes obras são sempre uma surpresa. O livro é um must. E não só pela temática (sempre curiosa, mas nunca garantia de qualidade), como sobretudo pela valente respiração de que o relato se toma. Os lugares, as épocas, os ambientes, tudo rodopia com nitidez, com embalo, com vertigem (só aqui e ali excessiva para a concentração comum, como a deste leitor), criando sabiamente expectativas, conferindo colorido a personagens e brilho a episódios. Assinale-se a crua limpidez do vocabulário erótico. Assinale-se, também, a abrupta e bem gerida inclusão, em existências queque, do elemento bas fonds. Lamente-se, sim, a frívola atracção das etiquetas, a obsessiva pose dos livros, da música, dos vinhos, das iguarias, da hotelaria, dos diplomas, que roça a obscenidade na descrição dum jantar volante, quase a meio do livro. O leitor verá. E tentará perceber porque é que – banal exemplo – haverão uns sneakers de ser tão fatalmente Louis Vuitton. Ninguém morre. Ninguém fica com ninguém. E os primeiros amores, mesmo se proletários, revelam-se, embora definitivamente perdidos, os verdadeiros. Definitivamente perdidos? A estas alturas do campeonato (perdoe-se o registo), a malta cheira as sequelas. De momento, basta esta Cidade Proibida para encher as medidas.