Lauro António, Lauro António Apresenta..., 2007.
Print

Devo confessar: comprei o livro sem grandes esperanças, nem desesperanças. Nada sabia do autor a não ser que era nosso companheiro da blogosfera, que assinava e escrevia, quase na íntegra, um bom blogue, Da Literatura, e que lera dele, aqui e ali, críticas literárias interessantes. Chama-se Eduardo Pitta, o romance de estreia é Cidade Proibida, e, pelo que percebi ao folheá-lo na Fnac, é uma obra daquelas que muitos vão catalogar de literatura gay e colocá-la na banca assim denominada. Esta classificação parece-me de todo inqualificável, a não ser para facilitar vendas: os gays que procuram literatura gay vão àquela banca e escusam de se perder no meio da literatura hetero. Mas haverá literatura gay? Oscar Wilde e E. M. Forster são literatura gay? E Somerset Maugham? E Jean Cocteau? Ou serão simplesmente literatura? Para mim basta-me que seja boa literatura, muito boa mesmo. Ora Eduardo Pitta surpreendeu-me em toda a linha. Li Cidade Proibida de um fôlego, e não por ser gay, e não também pela história que conta, mas sobretudo pelo estilo, pela vertigem da narrativa, imparável, pelo toque blasé, mesmo um pouco snobe que impõe e mantém com uma frescura notável ao longo de toda a obra, e que relembra o magnífico dandismo de Oscar Wilde, aqui retocado por um look muito pós-moderno. Óbvio que também se pode chamar à conversa o Maurice, de E. M. Forster, mas curiosamente a escrita lembrou-me mais a de alguns escritores americanos da década de 90 [...] Há um gosto pelo rigor matemático na escrita que poderia ser fastidioso, mas funciona precisamente ao contrário, é exaltante. Não há muitos pormenores, a escrita corre ágil, mas há uma precisão insuspeitada. Um exemplo à sorte do abrir da página: «Nessa tarde não voltou ao Instituto. Andou a pé horas a fio e só quando o corpo cedeu descansou num banco do Campo dos Mártires da Pátria. Depois foi à Trindade comer um prego e a seguir meteu-se na sauna do Largo da Misericórdia.» Um rigor que leva o autor a abrir o seu romance com uma Tábua de personagens onde refere e sinaliza cada personagem e cada família [...] O que transforma este romance, para mim, numa das revelações dos últimos anos. É evidente que temos de fazer uma referência ao teor homossexual do livro. Obras “maricas” é o que há cada vez mais. Escritas amaricadas, “poéticas”, como que a desculpar “a coisa” com o sentimentalismo balofo das “emoções em êxtase.” Aqui não há nada disso, esta é uma história de amor e sexo igual a qualquer outra, o realismo de certas situações quase faz esquecer que os amantes são do mesmo sexo. São pessoas que fazem sexo. Assumidamente. Sem má consciência. De resto as descrições deste tipo são as que são, as precisas, as indispensáveis, não se especula com o facto. Um excelente romance de um autor nascido em Lourenço Marques a 9 de Agosto de 1949, e que viveu em Moçambique até Novembro de 1975. [...]