José Mário Silva, Diário de Notícias, Lisboa, 2007.
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Poeta, crítico, ensaísta e blogger – com presença diária no blogue Da Literatura, de onde saíram os textos do volume Intriga de Família, recém-editado pela Quasi –, Eduardo Pitta é uma das vozes mais ácidas e contundentes do panorama cultural português dos nossos dias. Erudito e blasé, polémico e sem papas na língua, atento à actualidade e rápido a reagir, escreve sobre tudo e mais alguma coisa (do S. Carlos à Ota, passando pelos melhores restaurantes), com um desassombro que lhe causa não poucos engulhos num meio habituado a mesuras, verniz e salamaleques. Embora a sua obra remonte a 1974 [...] estreou-se na ficção apenas em 2000, com Persona, um conjunto de três narrativas breves que deu à estampa numa editora discreta – a Angelus Novus, de Coimbra – e que republicou agora na QuidNovi, antecipando o lançamento do seu primeiro romance: Cidade Proibida. Uma coincidência que faz todo o sentido e não foi certamente fruto do acaso. Porque o que Persona deixava antever é o que Cidade Proibida confirma: a emergência de um narrador sólido, sem debilidades de principiante nem tiques de consagrado, capaz de contar uma história com precisão e lhaneza – coisa raríssima em Portugal. Além disso, há evidentes pontos de contacto entre as duas obras. Se Persona era o retrato nítido, em três etapas bem marcadas no tempo, da formação da identidade homossexual de Afonso Cordes Sacadura, com a decadência do império colonial em Moçambique como pano de fundo e uma crítica explícita a dois universos repressivos (a escola e o exército), em Cidade Proibida deparamos com um fresco ao mesmo tempo minucioso, cruel e desencantado da sociedade portuguesa contemporânea. Ou, para sermos mais exactos, de uma certa faixa da sociedade portuguesa: a upper-class que vive fechada numa redoma, algures no eixo que vai das mansões da Linha à Lisboa das elites, reduzida ao «triângulo cujos vértices» passam pelo «Príncipe Real, a Praça das Amoreiras e o Saldanha». Pitta demonstra conhecer muito bem este mundo de pessoas com apelidos sonantes [...] altivos, snobes, quase todos hipócritas, convictos da sua superioridade social e «imunes ao quotidiano». É neste cenário etéreo que arquitecta a sua história de desagregação amorosa, focada na relação de um casal gay – Martim / Rupert – sujeito tanto às pressões do meio (Martim) como a um cocktail de ressentimento classista e sombras de um passado mal resolvido (Rupert). O que mais impressiona no romance de estreia de Pitta é a admirável desenvoltura da prosa (que se lê numa vertigem), a elegância estilística e o domínio das técnicas narrativas. Há um fio de acontecimentos que se sucedem na Lisboa do início do séc. XXI, subtilmente marcados pela História (dos traumas coloniais ao 11 de Setembro), e uma série de flahsbacks que se encaixam no puzzle com uma justeza próxima da perfeição. O resto – e não é pouco – tem a ver com a coragem de escrever sobre sexo da forma mais gráfica possível, sem eufemismos, abrindo de vez o caminho para a afirmação de uma literatura homossexual à la page com o que de melhor se publica lá fora, nomeadamente no Reino Unido (cf. Alan Hollinghurst). Não tenho dúvidas aliás de que Cidade Proibida, se Pitta fosse inglês, seria facilmente candidato ao Booker. Mas será que teria (ou terá) hipóteses, em Portugal, de ganhar um merecido prémio da APE? Duvido muito.