Ana Cristina Leonardo, Expresso, Lisboa, 2007.
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Seria Bovary uma personagem mais interessante se Flaubert não fosse, lui-même, Madame? Teria Karenina falhado o comboio se Tolstoi, ao invés de longas barbas, usasse saias? [...] O assunto tem a complexidade que lhe quisermos atribuir. Neste caso, vem a propósito da recente ficção de Eduardo Pitta, Cidade Proibida, um livro ao qual anda por aí colado o epíteto de romance gay. [...] Cidade Proibida é muito mais do que uma história de amor sem final feliz entre dois homens, mesmo sendo verdade que «the novel tells a story». Retrato de um meio social solipsista, cheio de gente enfatuada e cautelosa, o livro é uma assumida crítica de costumes, que sabe que a palavra [...] «exige ser posta em confronto com um mundo que possua uma realidade própria.» [...] No conjunto, é um texto rápido e nervoso, onde os desvios históricos (acompanhados de notas) reforçam uma filiação contemporânea, mas que peca por não levar mais longe o cinismo. Linguístico e filosófico. Teríamos um livro à medida do seu óptimo epílogo.