Henrique Raposo, Atlântico, 2007.
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Persona, livro de contos de Eduardo Pitta, agora reeditado, a par da edição do primeiro romance do autor, Cidade Proibida. Quem colocar este livro no gueto da literatura gay não está a ver o filme todo. O que mais interessa na escrita de Pitta é a forma. Pitta poderia escrever sobre a epistemologia do pinguim, que seria bom na mesma. Pitta escreve de uma maneira quase inédita para a prosa portuguesa: frases cruas, secas, duras, limadas e cortadas até ao limite. Um assomo de clareza numa terra de palavrosos. A clareza, em Portugal, é rara. Sena, Eça, Nemésio, Carlos Oliveira (os primeiros). E pouco mais. Tenho sempre a impressão que os prosadores portugueses querem ser russos no mediterrâneo. O escritor português típico acha que cortar texto é pouco edificante; deve achar que uma frase saída do seu génio não pode ser cortada, limada, deitada fora. Por isso, a nossa prosa é o que é: medíocre [...] Pitta choca com tudo isto. A escrita de Pitta mostra que o português não está destinado a ser prisioneiro do obscuro, do ininteligível.