Helena Vasconcelos, ÍPSILON, Público, Lisboa: 2007.
Print

Cidade Proibida, de Eduardo Pitta, aparece simultâneamente com a reedição de Persona, pequeno volume de três contos que se articulam brilhantemente com esta última obra. Se Persona é um hino à juventude, às novas experiências e à sexualidade triunfante, Cidade Proibida é uma história de adultos desencantados, regidos por preconceitos sociais, materiais e sexuais. [...] O autor remete-nos para os condicionamentos de uma liberdade que se apresenta como um estado de felicidade erótica e de contentamento estético mas que, quando alcançada, se revela fugaz e impermanente. [...] Os heróis líricos e dramáticos deste Romeu e Julieta contemporâneo são Martim e Rupert, amantes que tacteiam no escuro sem encontrar o entendimento e a razão. [...] De Martim passa-se para a figura de Afonso nas páginas de Persona. Como o próprio título indica, Pitta remete o leitor para as máscaras usadas no teatro grego [...] e para as misteriosas e insondáveis máscaras africanas. No último conto, Afonso, já a cumprir o serviço militar, em 1970, é protagonista de um caso que o leva à prisão (militar) pelo seu envolvimento sexual com outro homem. O autor desfaz tabus e põe a nu a instituição militar e o absurdo da guerra. Dos três contos, este é o mais eficaz, atravessado por uma beleza estranha e pungente, aliada a uma crueza que revela os meandros de uma sociedade que se entregava a todo o tipo de práticas, mascaradas por uma “civilizada” e educada camada de hipocrisia. [...] Será necessário falar da temática gay na obra de Eduardo Pitta? Podemos colocá-lo a par dos escritores canónicos que são analisados à luz desses estudos: Oscar Wilde, Thomas Mann, E. M. Forster, André Gide, Jean Genet, Christopher Isherwood, William Burroughs, Gore Vidal, Carson McCullers, James Baldwin, Djuna Barnes, Marguerite Yourcenar, que se juntam aos contemporâneos David Leavitt, Jeanette Winterson, Sarah Waters, Jim Grimsley, entre muitos outros. Pitta aproxima-se do celebrado Allan Hollinghurst que ganhou o Booker Prize com A Linha da Beleza, um clássico do género, onde se cruzam as tensões sociais, familiares, políticas, sentimentais e físicas (com o eclodir da Sida). De acordo com Richard Hall, autor de antologias de textos gay, este género mudou desde o fim da 2.ª Grande Guerra, passando de «uma literatura da culpa e da desculpa para uma de desafio político e de celebração da diferença sexual». Pitta segue, decididamente, esta segunda tendência e tem, a seu favor, vastos conhecimentos de Literatura que entrelaça com habilidade na sua própria ficção. Mas enquanto que, basicamente, a trama de Cidade Proibida, tanto poderia ser construída entre dois homens, duas mulheres ou uma mulher e um homem, a dos contos em Persona é vincadamente e triunfantemente gay, muito mais excitante, vigorosa e reveladora. A obra de Eduardo Pitta é corajosa, desassombrada, inteligente, clara e escrita com paixão e sabedoria. É difícil, na Literatura Contemporânea, ler um bom livro em que se fala livre e fulgurantemente de sexo, do prazer erótico e da transgressão. E, também, da perda. Eduardo Pitta fá-lo com a mestria de um grande narrador.