Fernando Pinto do Amaral, Jornal de Letras, Lisboa: 2007.
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A publicação do primeiro romance de Eduardo Pitta representa uma novidade nos dois contextos em que se insere  –  o da ficção portuguesa contemporânea e o da própria obra do autor. [...] Olhemos, então, para esta Cidade Proibida e assinalemos desde logo um estilo pessoal, assente numa escrita ora muito directa e incisiva, por vezes mesmo abrupta, ora subtilmente irónica e com alguma tendência para o understatement, mas sempre pronta a desferir os seus golpes a propósito da realidade portuguesa  –  uma realidade que o autor conhece bem, embora abordada muitas vezes a partir de um ângulo exterior ou estrangeirado [...] o que transforma este livro numa obra relevante também no domínio da crítica social. Para assentarmos ideias, diria que talvez o maior mérito de Cidade Proibida resida na articulação sempre fluida entre dois grandes propósitos nem sequer contraditórios: por um lado, o de analisar as características, os hábitos ou os vícios disso que, à falta de melhor nome, podemos designar por comunidade gay; por outro lado, o desejo de proceder a uma crítica, por vezes muito acutilante, de uma certa sociedade portuguesa tradicional e conservadora, ainda com traços fortemente elitistas, e cuja hipocrisia surge denunciada através da desconstrução de muitos comportamentos dos seus protagonistas. [...] É todo este quadro mental que o romance de Eduardo Pitta vai dissecando com um bisturi cuja lâmina parece aguçada pelo olhar quase científico de um entomologista que nos estudasse como insectos, como se os nossos comportamentos sociais obedecessem a leis antigas, também elas quase biológicas, que no caso português levaram séculos a estabelecer-se e não se desfazem por decreto. [...] Outros motivos poderia haver para lermos este romance diferente, que de certo modo só poderia ter sido escrito por alguém como Eduardo Pitta nesta fase da sua vida, transmitindo-nos as lições de uma experiência acumulada ao longo dos anos.