Edgard Pereira, Colóquio-Letras, Lisboa: 2008.
Print

Em foco, o romance Cidade Proibida, estreia produtiva de Eduardo Pitta na ficção de longo fôlego, decisiva contribuição à consolidação do relato de contorno gay em Portugal. A adesão à temática, de forte presença e espessura na produção poética do autor, vem na vertente ficcional desde a admirável trilogia de contos, intitulada Persona (2000). Em roupagem esplêndida, graças a requintado material gráfico e visual. Jogando com uma trama bem elaborada e sofisticada, a envolver figuras do alto mundo de Portugal, Inglaterra e Moçambique, numa linguagem ágil, apta a dizer directamente as coisas e expandir dinamismo e ironia para todos os lados, o romance apresenta um perfil sem retoques da sociedade burguesa contemporânea. [...] Sem incorrer em juízos morais, ao apresentar uma sucessão de burlas, hipocrisia, orgias e desrespeito a princípios éticos de liberdade, o narrador, contudo, não ignora os efeitos devastadores de pequenos sintomas de decadência a solapar os alicerces da sociedade ocidental. Pelo contrário, lá pelas tantas, a mãe do protagonista (sempre elas), por vezes alter ego do narrador, expõe apreensões exasperadas: “Se a reserva de intimidade de um artista cabe toda numa frase kitsch, que juízo fazer da evolução dos costumes?” O ritmo acelerado da acção  —  mínima, por sinal, uma vez que se fundamenta em tomadas retrospectivas  —  implica mudança arbitrária de actores em cena, forçando uma linha de continuidade por vezes superficial, à beira de alguns estereótipos. [...] Ainda que seja ampliado o estatuto do narrador-editor, o congelamento dos dados históricos, culturais e psicológicos das personagens se, de um lado, aponta para uma abertura estrutural, convocando componente do texto dramático, por outro, trai a abertura ficcional, condicionando o leitor a aceitar um dado, cuja coerência, urdidura e pertinência verosímil caberia ao texto apenas desenvolver e demonstrar. Se há um compromisso em arejar as fronteiras da cidade proibida, incorporando vozes silenciadas e o dissenso, por conta de violentas repressões e traumas, não seria demais incorporar uma escrita menos autoritária. Negar o contraditório e sufocar a dinâmica da vida e sua contínua legitimação é generalizar e homogeneizar as relações humanas, as quais, daqui para a frente, tendem cada vez mais a desenvolver um carácter híbrido, impuro, imperfeito.