Yvette Centeno, «Persona», 3.ª edição, Literatura e Arte, Lisboa: 2020
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Comecei, numa nota breve, umas considerações no Facebook sobre a difícil arte do conto. [...] A mim o que me seduz é a capacidade, o engenho, de condensar o muito de uma narrativa no pouco de uma expressão que sem perder profundidade e sentido ali nos é exposta, para ler e pensar. [...] Ocorre-me isto por ter lido, do Eduardo Pitta, escritor cuja prosa aprecio desde que a descobri, pelo que tem de conhecimento justo e alargado da nossa língua, não é pela sua mão, realista, camiliana, ajustada aos seus temas sem floreados ditos de "encher" que a nossa língua, tão rica, se vai empobrecer.
 
É vasta a sua obra, e pouco teria a acrescentar enquanto comentário literário, ao que já foi apontado na marginália literária desta reedição da obra. O que pretendo é aprofundar, se for capaz, a arte do conto, neste pequeno grande livro PersonaO autor lhes chama «contos morais», mas o facto de formarem uma trilogia, aponta para uma evolução que foi concebida no sentido de haver aí algo de comum, e que ao leitor não deverá escapar. São cada um uma étapa da formação ou do crescimento, físico, emocional, intelectual que se deu em diferentes espaços (o que pode ter a sua relevância: mais livres uns, menos, outros). Moçambique e África do Sul, nos anos 60, e o último, Pesadelo (o título já é sinal), entre 1971 e 1973. Aqui se revisita o passado. Mas não para fazer ou refazer memorialismo, mas muito simplesmente para o situar, o entender. Volto (será da idade? será da experiência de vida?) ao meu amado Holderlïn: «somos um sinal, sem sentido [...] e quase perdemos a língua na distância.» Estes são versos da segunda versão de Mnemosyne [...] a grande reflexão que Heidegger aproveita para pensar o pensamento e a memória, em O Que É Pensar, o conjunto dos últimos seminários que deu em Heidelberg, depois de perdoado pela adesão ao nazismo.
 
Parece que me afasto do tema central da arte do conto, nesta obra de Eduardo Pitta, mas não. Desejo aproximar-me do sentido de que os contos são procura e manifestação e em especial dessa secreta e misteriosa língua que quase se perde na distância.  Esta é a língua de que Eduardo não se perde, simbólica, profundamente enraizada no seu inconsciente (ele é a distância, e a ele devemos estar atentos, para estar vivos). Afonso é o fio narrativo que passa de um para outro conto, mas do qual o autor não deseja mais do que isso. O autor distingue os momento de per si, cada qual com sua forma e sentido, e é do sentido e da língua na distância de que não pode perder-se, que na verdade se ocupa. Quando já no fim da obra, depois de tantos momentos e peripécias variadas, ficamos com uma espécie de grande tela de um tecido social, de que em Portugal continental pouco se saberia, ou dele pouco se falaria, e que o autor aqui nos deixa com todos os pormenores, dos mais ínfimos, incluindo até os menus das jantaradas ou das recepções mais formais, citando e isso até nos é agradável, leituras como os Cem Anos de Solidão, ou a cultura que impelia alguns outros, fora dali, a ir ver o eterno Ionesco — nada, mas nada escapava ao escrutínio do jovem Afonso, alter ego / persona do nosso autor. As descrições são detalhadas, o olhar é devorador, bem como certas experiências e situações de carácter sexual que em Portugal naquele tempo nunca a censura teria permitido, o 25 de Abril demoraria um pouco mais a chegar, até o linguajar da tropa, na tropa era como era, mas não surgiria sob a forma de prosa de escritor  ler entre nós Cardoso Pires já era quase milagre.
 
Eduardo vem de longe, é outro — boa escolha o título de Persona — escolhe os caminhos das verdades cruéis, não fica atrás dos franceses que leu, como o Marquês de Sade ou outros da escola inglesa, entre nós menos conhecidos. [...] Mas porquê definir como conto algo que já o célebre Tom Jones de Henry Fielding, no século XVIII, tinha libertado de qualquer definição que fosse um empecilho? Ou Rabelais, ainda antes, ou a magnífica história de Apuleio, o Burro de Ouro? E a sua simbologia? Precisamente porque nestas narrativas de Eduardo a precisão, a concisão, o cuidado com a língua é de tal ordem, que é nesse exercício que nos devemos prender e aprender, apesar de toda a narrativa que nos envolve também em mundos reais, de outrora e  menos conhecidos. Se no romance ou na novela predomina o enredo, no conto predomina a língua. E não vou repetir Holderlïn.