Hugo Pinto Santos, «Pompas Fúnebres», Colóquio-Letras 192, Lisboa: 2016
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A penúltima crónica coligida por Eduardo Pitta em Pompas Fúnebres começa por perguntar «Para que serve a crítica?» [...] O que quer dizer, isso sim, é que Eduardo Pitta não pode esconder a sua condição de escritor e de crítico literário quando assina as suas crónicas. [...] Eduardo Pitta, é sabido, não padece da habitual má consciência nacional que parece fugir do prazer, da sensualidade e da sofisticação como se estes valores fossem, automaticamente (e em bloco), um estigma de inevitável futilidade. E se Pitta não teve de se submeter ao absurdo do tirano, não são raras as vezes em que fustiga o que chama de «mandarinato». O que, embora por trilhos distintos, consiste noutra casta de prepotência e trono. Gore Vidal é outro dos autores que bem podiam formar um modelo para a prática de escrita e para o tipo de reflexão que Eduardo Pitta leva a cabo. [...] E quando, com o subtil sentido de humor que costuma caracterizá-lo, Pitta comenta que «só não met[e] Suetónio ao barulho para não alvoroçar a malta», está não só a remeter para esse magma histórico-cultural, mas a abrir uma das mais importantes portas de acesso à sua reflexão sobre a literatura. [...]
 
Como sempre, procede sem excesso de mesura, nem complacências. [...] Talvez não por acaso, Eduardo Pitta é dos que não enjeita a referência biográfica, a anedota culta, ou a articulação entre produção artística e contexto histórico. [...] A posição assumida por Eduardo Pitta é sempre a de varrer a generalidade do campo de visão que se abre diante de si, optando por destacar o que seja a referida «grande tradição» [...] O que fica dito não implica, todavia, que as crónicas acolhidas em Pompas Fúnebres se circunscrevam à matéria cultural e, mais especificamente, literária. Pitta é perfeitamente capaz de fornecer indicações genéricas que apontam para linhas de força globais. [...] Nas crónicas que coligiu em Pompas Fúnebres, Eduardo Pitta analisa o seu tempo, destacando o que lhe é específico e estudando os contrastes e as permanências — «O intelectual foi sempre o homem a abater, o ar do tempo apenas mudou as munições». O chamado ar do tempo é revisto à luz da corrente imparável das eras. O sentido de humor e a perspicácia, a noção das proporções e o olhar atento salvam os pormenores da irrelevância e erguem-nos ao estatuto de categorias universais. [...]