Pedro Mexia, «Pompas Fúnebres», Expresso, Lisboa: 2014
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Conhecido sobretudo como poeta, Eduardo Pitta mudou esse paradigma na última década e meia, publicando onze livros de ficção, ensaio, crítica, e diários, viagens e memórias. Pompas Fúnebres é o seu segundo volume de crónicas, depois de Intriga em Família (2007), e reúne meia centena de colunas escritas para a revista LER. O falível critério das crónicas menos situadas no tempo é aqui talvez substituído pelas mais situadas, as mais identitárias; aquelas que, como o autor lembra nas epígrafes, convocam lembranças e precipícios. Isso significa temas como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, os escritores LGBT, o patrício e feroz Gore Vidal; trivialidades como o dress code e o gossip; e, claro, as recordações ambíguas de um pied-noir. [...]

O estilo de escrita é, como sempre em Pitta, muitíssimo legível e sucinto, embora tortuoso nas intenções. Não faltam textos ácidos à clef, algumas semificções [...] Vale a pena no entanto dizer que o livro tem um fio condutor bem interessante: o cânone e a legitimação em literatura. Crónica após crónica, revivem-se as últimas quatro décadas, o ocaso do neo-realismo, as mutações no mercado editorial e livreiro, o marketing, a decadência do jornalismo cultural, os supostos booms das décadas de 1980 e 2000 [...] Aos romancistas novos, por exemplo, é diagnosticado um hipotético «défice de real» [...]