Osvaldo Manuel Silvestre, «Aula de Poesia», Revista de Estudos Literários da Universidade de Coimbra, n.º 1, 2011
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Aula de Poesia  A publicação de um livro de crítica de poesia pode justificadamente colocar-se sob a égide daquele título com que T. S. Eliot resumiu os problemas que poesia e crítica arrastam, na sua tão-só existência: The Use of Poetry ant the Use of Criticism.  [...]

Eduardo Pitta possui, de modo inquestionável, um dos requisitos do crítico: leitura em primeira mão, vasta e aturada, do corpus da poesia portuguesa contemporânea (e não apenas da portuguesa). Este requisito, que é o momento ético da leitura, combina-se nele com outros, como a capacidade propriamente crítica, isto é, discriminativa e judicativa, de avaliar e seleccionar, bem como um palato muito sensível em questões de gosto. Podemos divergir, como é sempre inevitável quando se trata de um crítico com um trabalho já vasto, das suas valorações, das suas embirrações e paixões, mas é justo reconhecer que a cada caso os excertos seleccionados são pertinentes, argumentativos e reveladores. O trabalho antes referido de leitura e decantação pode parecer menor a certos olhares apressados, mas na verdade é essencial para que a ecologia da poesia se mantenha ao nível exigido numa literatura com séculos de existência e fundada por um género poético medieval. Não cabe, ou não deveria caber, à universidade fazer este papel de filtragem do contemporâneo e da sua avaliação por relação com a tradição. [...]

O trabalho de Eduardo Pitta, que a meu ver tem o seu melhor momento em Comenda de Fogo (2002), talvez pelo empenho patente nos textos reunidos nesse volume, textos que deram de facto uma forte contribuição para o recorte crítico dos anos de entre 1960 e 2000 da nossa poesia, pode a meu ver ser descrito, ainda com a ajuda de Eliot, noutro dos seus grandes ensaios, The Classics and the Man of Letters, naquele momento em que o ensaísta define uma das funções da crítica: «Uma função da crítica… consiste em agir como uma espécie de mecanismo regulador da taxa de mudança do gosto literário». [...]

Eduardo Pitta sempre me pareceu um muito fiável mecanismo regulador da taxa de mudança do nosso gosto poético. [...] Como é sabido, o autor tornou-se entretanto uma figura pública na área do comentário político e cultural e na do «activismo» (com muitas aspas) gay. [...] O trabalho de Eduardo Pitta tende a cristalizar-se em textos para os quais o melhor nome seria o de «perfis» de teor biográfico crítico. Na sua quase totalidade, estes textos não têm título, sendo essa função desempenhada pelo nome do poeta estudado (exceptuam-se os textos sobre antologias, que pela própria natureza do género antológico, tendem também à figura do retrato de autor, embora em versão micro). Nesse modelo, Eduardo Pitta trabalha com grande competência e fiabilidade, fazendo questão de dilucidar problemas de datação, atribuições erróneas, etc. O modelo funciona melhor quando o texto apresenta alguma extensão, por razões óbvias, e parece-me especialmente adaptado a uma pedagogia da poesia na cultura literária da nossa sociedade. O modelo, contudo, embora tendendo ao panteão canónico, não é utilizado de forma neutra pelo autor, já que não custa reconhecer a teoria de autores que aqui surge aqueles aos quais o crítico atribui um lugar mais próximo do seu gosto e afecto. [...]

Lembro, a este respeito, que foi em boa medida a publicação de Fractura, em 2003, que fez com que certos e notáveis compagnons de geração de Eduardo Pitta viessem enfim proclamar a sua condição sexual. Note-se que o meu reparo não obsta a que reconheça a coerência sistémica com que Eduardo Pitta executa Eugénio, já que essa execução faz sentido em contraponto àquilo a que eu chamaria a canonização de Cesariny, que seria manifestamente o «bom exemplo» desta narrativa de emancipação na nossa poesia. Mas faz sobretudo sentido em relação a uma tese forte, que atravessa este livro, e que já antes referi, a propósito da «respeitabilidade» desejada por todos os que hoje acedem à República das nossas Letras [...] O resto, ou aquilo que do que resta me permito ainda abordar, são, para começar, divergências valorativas que não colocam em causa a dimensão conversável do trabalho do crítico. [...] E ainda dívidas, como a que contraí para com Eduardo Pitta já há anos, a respeito de Rui Knopfli [...]

Termino com uma passagem que justifica a leitura deste livro e, antes dele, a leitura da poesia. Surge ela num texto sobre Helga Moreira e, à sua maneira discreta, enuncia os desprezados dramas da enunciação da voz lírica: «Porque, ao invés da legenda, é quase sempre exorbitante o preço que pagamos pela poesia, lá onde ela se confunde com a idade cada um». (p. 98) Fiquemos com esta confusão, desejando que seja essa a lição essencial desta aula de poesia.