António Carlos Cortez, Jornal de Letras, 2011.
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Sobre Desobediência  —  Pitta não é um prosélito, mas antes um polemista, sem ser panfletário, o que mais lhe importa é uma percepção das coisas que conduzam o sujeito a um conhecimento do íntimo e da intimidade. O seu dialogismo, bebido em Larkin ou talvez em [Douglas] Dunn, reforça a construção de um mundo pessoal marcado pelo espanto do corpo e pela não menos espantosa efemeridade da beleza desse corpo amado. A rigorosa construção de uma ironia, jamais exasperada e sempre contida, vem de par com uma sageza do erótico e da palavra que fazem de Eduardo Pitta o construtor de um léxico mínimo, depurado e, ao mesmo tempo  —  porque há imagens fortes, intensas  —, deflagrador de múltiplos sentidos, como se as palavras produzissem, no acto da leitura de um efeito expressivo que deriva daquele expressionismo de que fala Graça Moura, mas que é, quanto a nós, sinal de uma revolta íntima: contra as instituições e contra a Cultura, que se opõe a uma procura da Natureza livre.