Eugénio Lisboa, «Um Rapaz a Arder», Colóquio-Letras 185, Lisboa: 2014
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Com este seu livro de memórias, Um Rapaz a Arder, circunscrito ao período que se situa entre 1975 e 2001, Eduardo Pitta vem aumentar a bibliografia memorialística portuguesa, que, não sendo muito vasta, inclui algumas espécies de suficiente vulto: desde as Memórias, do Marquês de Fronteira, as Memórias do Cárcere, de Camilo, as de Raul Brandão, entre muitas outras, até A Criação do Mundo, de Miguel Torga, O Mundo à Minha Procura, de Ruben A., ou A Memória das Palavras, de José Gomes Ferreira, entre muitos outros exemplos que poderíamos dar. As autobiografias, desde que suficientemente voltadas para “fora do eu”, podem também inserir-se na categoria do memorialismo. Na Antiguidade Clássica, o memorialismo e a História confundiam-se num só género: as Histórias, de Heródoto, a Anabasis, de Xenofonte, ou os Comentários, de César, eram tanto uma coisa como outra. [...]
 
Uma coisa têm em comum os memorialistas: visam contar a verdade acerca do seu tempo  —  acerca dos outros e de si próprios. No entanto, há sempre limites para a verdade que estão dispostos a contar. Montherlant dava, como preceito para a redacção dos seus Carnets (diários sem data) e para algumas das suas ficções de forte marca autobiográfica, esta medalha: “a verdade, só a verdade, mas não toda a verdade.” Não toda a verdade, por razões de respeito para com os outros ou para consigo próprio, por pudor, para se não ferir alguém, mesmo indirectamente, ou porque dizer a verdade toda pode trazer consequências trágicas. [...]
 
Porque, repito, o grande memorialista, por muito que ame a verdade, não desiste do estilo, talvez lembrado do aviso imortal de Buffon, quando observava que “as obras bem escritas são as únicas que passarão à posteridade: a qualidade dos conhecimentos, a singularidade dos factos, mesmo a novidade das descobertas não são garantes seguros de imortalidade. Essas coisas são fora do homem, o estilo é que é o homem mesmo.” Um só exemplo, colhido na p. 128  —  “A alta classe média [no zénite do cavaquismo] disputava andares que custavam milhões, e gente improvável instalava-se neles. O pato-bravismo vivia a sua hora de glória. Largamente oriundo das berças, grande parte do pessoal político saltou da carroça para o Porsche, acotovelou, trepou e instalou-se. A imprensa da época fez revelações que deixaram o país boquiaberto.” Há, nesta passagem, que contém muita verdade, um óbvio desdém do realismo minuciosamente gráfico, a favor da grande arte da sátira, que Eça tão bem cultivou e que Saint-Simon não recusaria assinar. [...]
 
O primeiro capítulo do livro  —  Próspero & Caliban  —  relata os seus últimos dias de Moçambique. Eduardo Pitta mostrava alguma ansiedade em relação a este particular capítulo e tinha razão para essa ansiedade, mas tinha-a pelos bons motivos: o seu relato é de uma total independência e frontalidade e é escrito por alguém que “não tem frio nos olhos” (como dizem os franceses). O que diz dos Democratas de Moçambique, do “pico das purgas”, entre 1975 e 1990, dos campos de “reeducação”, da “fome generalizada” e da “emigração de milhões”, nos anos 80, em Moçambique, é a pura verdade e deve ser contada, para que se não transforme o sangue da História em épico de cartolina, para consumo nas escolas. Este capítulo é imparcial e é, também, por vezes, ferinamente justiceiro, na sua notação brusca, à Saint-Simon: referindo-se ao dia em que se celebrava a independência de Moçambique, Pitta escreve: “Estavam lá muitos filhos da burguesia dourada, gente que não tinha sujado as mãos na guerra, preferindo viver anestesiada em Oslo ou Estocolmo. Alguns ficaram. A maioria regressou no primeiro avião ao borralho escandinavo.” Mas não é só esta ironia frontal que ocupa este capítulo. Pitta dá-nos passagens de uma ironia a beirar o surreal, como quando nos relata o lançamento do seu primeiro livro, na Lourenço Marques dos “últimos dias”. [...]
 
Um dos aspectos que torna atraente este livro é a corajosa falta de respeito para com os ícons estabelecidos: preferir, por exemplo, Érico Verissimo a Marcel Proust irá fazer eriçar-se mais do que uma sobrancelha. Embora admirando Verissimo, que considero muito melhor romancista do que Jorge Amado, teria alguma dificuldade em subscrever a afirmação de Pitta. Mas o que aqui está em jogo não é a nossa concordância com ela ou a nossa discordância dela  —  o que está em jogo é o seu desplante intrépido, ao dizer o que pensa, ao diabo as consequências! [...]
 
Eduardo Pitta apresenta-nos um panorama social, literário e artístico nada complacente. Certos quadros trazem, até nós, a futilidade, o vazio, a pelintrice das ideias, das emoções e das preocupações  —  que nos corroem a alma. [...] O regredir da sociedade e seus valores ao pré-25 de Abril é eloquentemente causticado, em tiradas deste gosto: “A Olá! cumpriu a função pedagógica de mostrar a um país faminto (a revista surgiu no pico da intervenção do FMI e das marchas da fome em Setúbal) que o 25 de Abril não tocou num cabelo das sessenta famílias que Cunhal toda a vida vituperou.” [...]
 
A memória de Eduardo Pitta é uma memória de incríveis minúcias, capaz de irritar quem não guarda, dos acontecimentos passados, senão recordações em clave de mais ou menos. [...] É esta minúcia que dá espessura e sabor a tais momentos, mas é também a origem da irritação dos menos dotados desse tipo de memória  —  e que se vingam, como já se viu, acusando o escritor de “snobismo” e outros pecados adjacentes. É possível que o seja, até certo ponto, embora da espécie inocente. Mas, nesse caso, apetece perguntar: “Porquê não perdoar ao Eduardo o que se perdoa, gulosamente, ao Proust?” Eu creio que este tipo de acusações ignora, sobretudo, um facto: na sua altaneira exibição de conhecimento microscópico do Milieu, Eduardo Pitta usa sempre  —  e fá-lo, com singular mestria  —  um fundo de ironia assassina, que só, até certo ponto, dissimula. Certas suas formulações decapitam sem piedade: “O Al Berto absteve-se. Em tratando-se de terceiros, e sobretudo quando não era o centro das atenções, aborrecia-se.”  E era nestes termos aparentemente snobs mas sibilinamente mortíferos que falava da aurora da Democracia: “Nos primeiros anos da revolução, os operários comiam sapateiras, a direita comia filetes de pescada, a esquerda comia bacalhau com batatas a murro e os não-alinhados comiam steak au poivre. As classes altas comiam no Lucas-Carton.  A caricatura vale o que vale, mas foi a Casa da Comida que mudou o paradigma.” [...]
 
Claude Roy, meditando sobre este género literário, que são as Memórias, observava: “Há escritores, homens de Estado, homens de acção, para quem escrever Memórias é não ter mais nada para viver...” [...] Não é o caso de Pitta que ainda se não reformou de viver, embora se tenha tornado um reformado oficial, no sentido de se ter volvido um alvo preferido dos esbulhos em que o poder se exercita. E também se não reformou de escrever, com muita poesia, ficção e ensaio a haver.