Eugénio Lisboa, rev. Colóquio-Letras, n.º 83, Lisboa, 1985. Cf. O Objecto Celebrado, Coimbra: AUC, 1999.
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Como aconteceu a muitos outros déracinés semelhantes, o regresso à «pátria» traduziu-se, neste caso, por uma espécie de exílio particular, em que tudo se perde menos a língua [...] Há nesta poesia firme, brusca e breve, feita de «palavras poucas», de «palavras nítidas, velozes», com «a claridade rente à terra» e «de uma crueldade sedosa», toda uma homenagem eloquente e pungente, ainda quando ou por isso mesmo que despida de sentimentalidade, àquela «Nostalgia haurida / no dédalo da memória.» Mas não só. Há também [...] espaço (compensação? redenção?) para o «verde de excessos», para o rosto de Antínoo, para a «cal impetuosa» das ilhas gregas, para o «vinho nomeado», para a «ternura a levedar / na polpa dos meus dedos», para «os dentes nas espáduas»  —  «veredas percorridas pelo fogo.» Para a «vontade desatinada», em suma. Para uma certa forma de desordem e para a música que a matiza: «É pela música que chego / e vos digo do insubordinado pulsar / de outra vontade.» [...] É o que faz o fascínio permanente e intenso da escrita poética de Eduardo Pitta [...] o domínio, a um tempo ilusório e firme, de uma escrita luminosa, tensa e alada, sobre um caos obscuro, violento e rico. Os «de fora», os que têm o hábito de ler só as aparências e auscultam a subversão onde ela não tem que estar, não sabem que um grande domínio externo apenas tenta frequentemente estrangular uma grande desordem interna.