Rui Knopfli, rev. Colóquio-Letras, n.º 89, Lisboa, 1986.
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Na fugacidade do instante e num registo tão económico e rigoroso, uma tão vasta gama de implicações e harmónicas [...] a capacidade de surpreender o quotidiano, transfigurando-o em algo que, sem nunca deixar de sê-lo, cristaliza na realidade única e diversificada que somente ocorre na zona misteriosa da oficina poética e da imaginação criadora [...] empresta à economia do texto um fulgor e uma qualidade emblemáticos: dez palavras, uma dúzia, três, quatro versos, para dizerem um longo arrazoado, tal é a linguagem definitiva das lápides. Decorrentes, ou concorrentes, uma e a mesma, eis as qualidades, ou qualidade, que me parecem conferir um timbre de singular excelência à voz que distingue Eduardo Pitta de outros  —  por certo muito estimáveis  —  valores da poesia portuguesa revelada a partir dos anos 70. O seu fio condutor exibe a força estrita, o traço linear e ácido da cicatriz indelével: «nenhuma água / para tanta cinza.»