Fernando Pinto do Amaral, rev. Colóquio-Letras, n.º 103, Lisboa, 1988.
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Vem esta reflexão abrir caminho à tentativa de compreendermos a poesia de Eduardo Pitta, que publicou há pouco tempo uma plaquette [Archote Glaciar] mas cujo primeiro livro data já de 1974. Não é fácil desvendar o seu percurso à luz do que mais terá sido importante nos anos 70 [...] Quanto a nós, falaríamos apenas no regresso a um tom expressionista, servido por uma violência de linguagem a que não estávamos habituados [...] Oscilando em geral entre narrações muito elípticas, descrições propositadamente estilhaçadas e um certo gosto pelo aforismo, estes versos contidos e incisivos recorrem, no seu movimento pulsátil, a inesperadas associações verbais ou a metáforas cuja agressividade apanha de surpresa o leitor mais incauto, processos que têm por pano de fundo um estilo violento e cortante [...] Convém aliás salientar como esse prazer dos extremos é outra das peculiaridades de uma escrita que sabe viver dos contrastes e às vezes nos queima como o próprio gelo [...] A toda essa arte de captação do instante, do irrepetível augenblick, podemos ligar a importância que para este poeta assume o olhar [...] Perante uma verdade com um poder tão decisivo, é forçoso reconhecermos a tragicidade que habita os núcleos temáticos da poesia de Eduardo Pitta.