Fernando Pinto do Amaral, O Mosaico Fluido, Lisboa: Assírio & Alvim, 1991.
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Menos etéreos, apesar de tudo, são os terrenos onde se move a poesia de Eduardo Pitta [...] já que o seu fulgor expressivo torna os versos detentores de uma energia e de uma força aglutinadora assinaláveis. A escrita ganha relevo, neste caso, graças a uma profunda vontade expressionista, aliás iniludível em títulos como Olhos Calcinados ou Archote Glaciar. Neste último se plasma esse brilho das sensações extremas, violentas e por vezes tão voláteis como a luminosidade de uma imagem olhada em contraluz: «Imobiliza-se lentamente na claridade / líquida da cidade / e fosforesce em contraluz.» [...] Estamos, assim, perante uma arte de captar ambientes físicos marcados por indeléveis memórias afectivas [...] Só para terminar, acentuo que esta poesia não se fixa apenas aos «inquestionáveis desígnios do amor» ou, pelo menos, não se lhes fixa euforicamente. Ao contrário, o eu vem a sentir-se frequentemente asfixiado pela sociedade que o rodeia [...] asfixia que transmite a estes versos uma tristeza que, sob a capa de uma atitude cool ou desprendida, acaba por obrigar o sujeito a esse género de olhar apátrida que deriva do seu exílio e o remete, dia após dia, ao «circuito / inevitável das coisas ociosas / sem sentido.»