Maria João Reynaud, rev. Limiar, n.º 1, Porto, 1992.
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Arbítrio parece assim corresponder à intenção de tornar perceptível uma coerência discursiva que poderá ter escapado mesmo ao leitor mais atento [...] Nesta espécie de remontée dans le temps, da maturidade à adolescência, que é porém um trajecto reversível, delineia-se, texto a texto, a deriva de um sujeito que estabelece com a linguagem uma relação fundada numa carência irredutível, ontológica, mas que paradoxalmente deixa entrever, através dessa mesma linguagem, uma desbordante energia pulsional que se traduz num excesso subversor da significação tangível [...] Poesia que surpreende, num impudor voyeuriste, os tropismos dos corpos que buscam na troca voluptuosa e fortuita «o instantâneo de um rosto intraduzível» — o rosto inominável que traz o estigma doloroso da condição humana.