Eugénio Lisboa, pref. de Marcas de Água, Lisboa: INCM, 1999.
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Além de poeta, ensaísta e crítico arguto, sensível, minuciosa e perversamente bem documentado, Eduardo Pitta recorta, no território escorregadio das nossas letras, um perfil singular e forte, de fulgores breves, nítidos, bruscos e decididos que lhe dão uma identidade particular e inconfundível. Desde o primeiro livro [...] que a sua voz se nos apresentou já feita e segura, a convir-nos um discurso inquietante, sensual, ocasionalmente ameaçador ou à beira do quase sinistro, solar e voluptuoso, mas incorporando, com igual apetência, o nocturno, o violento e o quase selvagem [...] Poeta dos mais notáveis de entre os que em Moçambique se fizeram e de lá saíram, embora isto não seja dito com frequência, a marca da sua poesia não tem contudo muito que ver com a chamada cor local, embora se lhe possam encontrar algures referências dessa natureza [...] Poesia que pouco ou nada deve àqueles valores que convencionalmente se perfilam como poéticos [...] o vigoroso discurso poético de Eduardo Pitta, na sua arquitectura aparentemente sólida e materialmente sedutora, mina-nos contudo, de modo insidioso e inelutável, a estabilidade interior e ilustra, como poucas, a proclamação de Marcel Béalu: «La mission du poète est de troubler la sécurité.» Quando o seu verso nítido nos explode no rosto [...] sabemos exactamente do que falava Béalu.