Fernando Pinto do Amaral, supl. Leituras, Público, Lisboa, 1999.
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Estamos, assim, perante uma poesia que atinge a sua vocação mais singular ao voltar-se para sensações ou emoções fortes, intensas, próximas dos extremos ou das altas temperaturas [...] são palavras capazes de queimar como o fogo e o gelo, imagens que surgem na «iminência do desastre» e se coagulam numa violência verbal que atribui ao vento uma doçura de lâmina ou pode mesmo descer à realidade mais crua do quotidiano [...] Também o domínio amoroso — absolutamente essencial em Pitta — aparece contaminado pela mesma carga expressiva, pela mesma intensidade. Quando vemos o rosto de alguém definido como «um mapa / crivado de cidades saqueadas», compreendemos até que ponto o erotismo corresponde aqui, em maior ou menor grau, a um território de sedução cuja febre desencandeia um frenesi envolvendo por vezes uma assinalável dose de violência [...] De facto, embora Pitta seja um poeta português e se tenha afastado da realidade moçambicana das últimas décadas, subsiste na sua poesia a presença nostálgica [...] de uma «terra / intacta e pura» já perdida.