Pedro Mexia, DNA, Lisboa, 1999.
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A poesia de Eduardo Pitta, agora coligida em Marcas de Água, aparece claramente como das mais significativas, embora mais discretas, dos últimos vinte e cinco anos [...] Pitta é de uma notável frieza no modo como inscreve, como se fossem lápides, as palavras de um discurso assumidamente autobiográfico, mas que se resguarda de qualquer confessionalismo excessivo. Na verdade, se muitas das influências de Pitta são anglo-saxónicas, o autor recusa o lado mais evidentemente quotidiano dessa matriz, e dela retira apenas uma economia verbal que se furta à palavrosa tradição latina [...] A poesia de Pitta retrata com grande vigor uma vivência homoerótica, mas nunca envereda pelo didactismo gay ou pelo “transgressivo” previsível [...] Há um duplo nomadismo nesta obra: o nomadismo do “apátrida” e o nomadismo da demanda erótica, marcada pelo arbítrio e por uma violência que se joga paradoxalmente entre a afirmação do corpo e um opressivo mal de vivre.