Rosa Maria Martelo, rev. O Escritor, n.º 13-14, Lisboa, 1999.
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Em Marcas de Água, e de um modo que nenhum dos livros anteriores poderiam por si só proporcionar, o leitor é encaminhado através de uma experiência do instante, ou mais exactamente do paradoxo do instante [...] E os poemas sucedem-se como se o tempo não pudesse medir-se senão pela súbita fosforescência que ilumina e fixa certos instantes, quando uma espécie de incêndio dos sentidos consegue unir numa liga indissolúvel as circunstâncias do acontecer e as palavras do poema [...] Julgo que esta tensão, que constitui o vector fundamental da poesia de Eduardo Pitta, surge mais evidente agora, em Marcas de Água. Se há sempre imensa gente nestes versos, isso não significa que eles cheguem a ser abertamente narrativos ou que assumam uma função representativa [...] A retracção discursiva, a aguda nitidez destes poemas tem qualquer coisa de ferida insanável, de dorida resistência. E se a intensa sensualidade que os atravessa nada tem que ver com a libido velada da melancolia, ela tem, no entanto, um reverso de ausência e desencontro que é, no fundo, o cerne do que aqui chamei errância.