Ana Luísa Amaral, rev. Colóquio-Letras, n.º 155-156, Lisboa, 2000.
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Este o primeiro aspecto que gostaria de referir: a forma implacável como o autor lidou agora com textos antigos, lucidamente recorrendo àquilo a que Eugénio Lisboa, no prefácio, chama “um tremor bem controlado”. Esse tremor controlado percorre a poesia de Eduardo Pitta, que assim se estrutura na tensão entre o lirismo e a sua desdramatização, entre a ternura e a ironia, entre o sublime e o contingente [...] Sobressaem neste livro grandes áreas temáticas: o amor, o erotismo, a guerra, a solidão, temas filtrados e depurados por uma lente rigorosíssima de ironia e contenção [...] O inferno, com uma tão larga tradição na literatura ocidental de raiz judaico-cristã, fundamental para a famosa síntese dos contrários da poesia de William Blake [...] é aqui revisto, para exprimir, uma vez mais, a tensão entre o pensado e o espontâneo, entre o sistematizado e o trivializado [...] na poesia de Pitta, esta condição de estrangeiro, de apátrida, que se revela, a nível das estruturas discursivas, na frequente suspensão do eu lírico e sua substituição pela presença de várias vozes, advém de o sujeito habitar vários espaços e identidades sem, de facto, pertencer a nenhum.