Fernando Matos Oliveira, Ciberkiosk, 2001, e rev. Colóquio-Letras, n.º 161-162, Lisboa, 2002.
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Eduardo Pitta, poeta e crítico assíduo de poesia, acaba de publicar o seu primeiro livro de ficção. Para quem teve oportunidade de ler a sua recente antologia poética, Marcas de Água, digamos que o encontro com este livro de contos regista uma deslocação assinalável da sua escrita. Das Marcas passamos agora para a esfera da Persona, título do livro em análise. Tal deslocação tem um manifesto interesse crítico, precisamente porque implicou a narrativização do sujeito e, com ela, uma maior legibilidade das Marcas que os livros anteriores exibiam nos interstícios dos versos. Com esta mutação, a escrita gay encontra em Portugal uma voz audível como não tinha tido até aqui. Aliás, poder-se-ia ver neste livro o sintoma da emergência mais ou menos consistente de uma cultura pública gay entre nós [...] A primeira impressão que se tem ao ler Persona é a de uma reactivação de experiências de leitura de algum património «moral» do séc. XVIII, até porque há entre eles marcas de género, digamos assim: ritmo acelerado, narrador autoritário, pathos autobiográfico e sobredeterminação da pulsão erótica [...] Assim, o dicionário gay tem momentos deveras virtuosos, como naquela «mamada digna de um tory», antes de «o comer à canzana, com muito cuspo e nenhuma benevolência». Do mesmo modo, a viagem de ida e volta facilita a celebração da escrita gay, seja ela de Joe Orton ou de John Rechy [...] a sua pátria é sobretudo uma pátria sexual. É esta que imprime as Marcas mais profundas à letra da sua Persona.