Miguel Real, Jornal de Letras, Lisboa, 2001.
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Designado pelo autor como «contos morais», Persona constitui o primeiro texto de ficção em prosa de Eduardo Pitta, poeta sobejamente conhecido e crítico literário da revista LER. Pensamos ter havido por parte do autor o estabelecimento de uma relação intencional, de carácter semântico, entre o título do livro e a qualificação dos contos [...] Assim, se bem interpretamos, Eduardo Pitta provoca-se a si próprio enquanto autor-narrador, evidenciando uma realidade social a que não permanece alheio, e provoca o leitor a deixar cair a «máscara» da normalidade social e a aceitar o conteúdo explicitamente homossexual dos contos [...] De uma linguagem crua, subvertora da «normalidade» mas fortemente realista, dotado de um léxico que combina tiques da alta-burguesia colonial com expressões do machismo militar, enquadrando uma espécie de iniciação social e sexual de Afonso, Persona vem assumir-se, no actual panorama literário nacional, como uma forma de triunfo do recalcado, ou seja, como uma libertação sem pudor moral da vertente gay da literatura [...] É, evidentemente, por estes motivos, um livro para a História [...] Eduardo Pitta veio finalmente libertar o «tio Ângelo» 57 anos depois da publicação de Mau Tempo no Canal [...] Finalmente, este livro de Eduardo Pitta, de um modo explícito a partir do conto «Pesadelo» [...] vem também trazer uma vertente nova que faltava à literatura portuguesa sobre a Guerra Colonial.